Brasil: deriva de agrotóxico está impactando plantios na campanha gaúcha, afirmam produtores

16 de dezembro de 2020

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A utilização de agrotóxicos que têm como base o 2,4-D (ou ácido diclorofenoxiacético) está prejudicando uma série de produtores rurais da região da campanha, principalmente a cultura da uva, mas não somente. Afeta também produtores de erva-mate, maçã, nozes, mirtilo, hortaliças e oliveiras, como afirma Valter Potter, da Vinícola Guatambu. Potter também é presidente da Associação Vinhos da Campanha Gaúcha, entidade que está se mobilizando contra os efeitos causados pela deriva do produto químico.

Segundo Potter, os efeitos da contaminação estão sendo sentidos há cerca de quatro anos. Porém a situação foi intensificada nos últimos três anos, com aumento no número de lavouras e locais afetados, com destruição principalmente de parreirais e oliveiras. “Eu diria que a região entre Itaqui e Piratini é a mais afetada, com relatos de muitos produtores, algumas dessas regiões sendo atingidas mais que as outras”, comenta Valter, sobre as regiões que mais estão percebendo problemas com a deriva deste agrotóxico.

O dirigente da associação vinícola afirma também que a comprovação da contaminação pelo 2,4-D se deu após denúncia na Secretaria da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural, que envia seus agentes para fazer a coleta de folhas e demais exemplares afetados, a fim de encaminhar uma análise oficial em laboratório da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Importante lembrar que o governo do estado tem um canal específico para as denúncias relativas à deriva do 2,4-D.

“Ano passado, 85% das amostras deram resultado positivo para a contaminação, este ano deu 87% de resultados positivos”, afirma Valter, ressaltando a estimativa de 1 milhão de litros de vinhos perdidos por causa dessa contaminação, somente entre os associados da Vinhos da Campanha. Coloca ainda que esta contaminação afeta mais diretamente os pequenos e médios produtores, já que as perdas para as grandes vinícolas acabam sendo menos expressivas, se comparadas com os prejuízos dos menores.

Acredita ainda ser difícil conseguir algum tipo de ressarcimento por essas perdas, já que a maioria dessas propriedades produtoras de uva e vinhos são, de certa forma, “cercadas” por propriedades de sojicultores, todos utilizando o 2,4-D.

“Este agrotóxico pode viajar muito, cerca de 20 a 30 km. Para se ter uma ideia, em um raio de 30 km, de uma cultura sensível como a uva, a nogueira ou oliveira, têm-se algo como 300 mil hectares, é muito difícil encontrar qual a pessoa foi a causadora de algum determinado problema. Não tem nem como pedir indenização, a única solução, que temos insistido muito no momento, é suspender o uso do 2,4-D no estado”, avalia.

Potter afirma ainda que esta parece ser a única solução, pois a tendência é, com o tempo, acabar com a diversidade produtiva do estado, já que este agrotóxico afeta tantas culturas e beneficia somente a soja.

Herbicida extremamente tóxico já foi usado como arma de guerra

O 2,4-D é o princípio ativo de herbicidas, produtos utilizados para matar plantas consideradas pragas. É utilizado principalmente, no RS, na plantação da soja, em alguns casos após o plantio, em outros, antes, para preparar o terreno. Estudos atestam que existe muito perigo na sua utilização, devido às próprias características físico-químicas dessa substância, que facilmente pode ser levada pelo vento no ar após a pulverização, atingindo culturas vizinhas e populações próximas, causando prejuízos materiais e humanos. Gigantes da indústria química, que produzem e lucram com este veneno, também admitem os perigos resultantes do uso dessa substância pulverizada no ar.

Este agrotóxico têm sido utilizado especialmente nas plantações de soja do estado para matar a buva, uma espécie nativa da América do Sul. Segundo estudo da Embrapa, a buva é uma espécie que notadamente infesta lavouras de trigo, soja e milho no Rio Grande do Sul. Este mesmo estudo indica que o uso indiscriminado do famoso agrotóxico Glifosato está produzindo espécies da buva que são resistentes à estes químicos, fazendo os produtores de soja buscarem outras substâncias ainda mais tóxicas, como é caso do 2,4-D.

O 2,4-D tem um grande poder desfolhante, atingindo principalmente as plantas de folhas largas (como é o caso das parreiras de uva). Segundo o Observatório do Agronegócio do Brasil: “o herbicida ganhou fama durante a guerra do Vietnã, quando foi empregado pelo exército dos Estados Unidos, associado ao 2,4,5-T”. O objetivo do uso deste químico foi o de desfolhar as árvores da mata vietnamita, para destruir os esconderijos de soldados escondidos, além de acabar com as plantações de arroz daquele país.

Problemas com este agrotóxico não é novidade

Da mesma forma que os produtores agroecológicos de Nova Santa Rita, que também foram afetados pela pulverização de agrotóxicos por terceiros, os produtores da região da campanha têm observados perdas nas suas lavouras. O viticultores (produtores de uva), especialmente, têm sofridos com muitos estragos pois a uva é uma cultura muito sensível ao 2,4-D.

O fato já é um problema recorrente no estado. Em matéria especial do Sul21, o repórter Felipe Prestes confirmou que diversos produtores de uva de outra região do estado, a centro-oeste, tiveram fortes perdas de produção nas suas parreiras de uva, durante o ano de 2019. Segundo apuração, os associados da Cooperativa Agrária São José, produtora de vinhos na cidade de Jaguari, perceberam que as folhas dos parreiras começaram a enrugar e se torcer, até definharem por completo. O presidente da Cooperativa, João Minuzzi, afirmou que os técnicos fizeram análises e não encontravam nenhum tipo de doença, até que uma análise laboratorial comprovou a contaminação por 2,4-D.

Minuzzi afirmou ainda que as perdas foram tão grandes que passou ser necessário comprar uvas de outros produtores para garantir a produção do vinho. Se antes produziam cerca de 18 toneladas, após os registros de contaminação pelo agrotóxico, a produção caiu para cerca de 5 e 6 toneladas.

Em outra matéria, publicada no Projeto Colabora, é contada a história do vitivinicultor gaúcho Jeferson Chequim Guerra, que, após ter sua propriedade atingida por uma “nuvem química”, viu seu vinhedo se tornar um "cemitério de parreiras". Guerra afirma que já colheu safras de 80 toneladas de uvas, e, após ser atingido pelo 2,4-D, passou a ter uma colheita cerca de oito vezes menor.

Ainda segundo a mesma matéria, este agrotóxico pode viajar até cerca de 20km de distância pelo ar. Trazendo a fala de Oscar Ló, presidente do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin), calcula-se que a vitivinicultura gaúcha perdeu R$ 100 milhões na safra de 2018.

Efeitos na saúde humana

Um parecer técnico elaborado pelo Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (órgão ligado à Fundação Oswaldo Cruz - Fiocruz) do ano de 2014 revelou uma série de perigos à saúde humana decorrente do uso do 2,4-D. Segundo o estudo, este agrotóxico pode ser absorvido pelo organismo humano pela boca, nariz (sistema respiratório) e pele. Isto pode acontecer quando este veneno é pulverizado no ar, sendo levado pelo vento até o contato com as pessoas, mas a contaminação também acontece quando do consumo de água e alimentos contaminados. Além disso, mulheres gestantes contaminadas, podem passar pequenas quantidades do agrotóxico para seus filhos através da amamentação, o que é gravíssimo segundo o estudo, pois expõe as crianças a estes riscos, "de forma irreversível", logo nesses primeiros períodos de desenvolvimento.

O parecer ainda faz uma revisão de estudos feitos com fazendeiros da Argentina que trabalhavam com este químico. As análises apontaram uma diminuição de espermatozoides destes fazendeiros, além de alterações no formato e queda na mobilidade. Nesse mesmo estudo, o 2,4-D foi detectado na urina destes trabalhadores, confirmando a contaminação desse herbicida. O parecer relata ainda que outros estudos atestaram indução de abortos espontâneos que podem estar relacionados a danos sobre as funções reprodutivas ou danos nas células germinativas dos pais.

Outro parecer elaborado pela Escola Nacional de Saúde Pública (órgão também vinculada à Fiocruz) também atesta os riscos para a saúde humana que são derivados da utilização deste herbicida. O documento foi utilizado pelo extinto Ministério do Desenvolvimento Agrário como argumentação junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para pedir que o uso deste químico fosse mantido sob limitações. Em 2014, a empresa Dow AgroScience solicitou a liberação comercial de plantas geneticamente modificadas que tolerassem altas doses de 2,4-D.

A política, à época, era de cautela com o uso destes agrotóxicos. Com a chegada dos governos Temer e Bolsonaro, estes químicos foram aprovados e seu uso cresceu exponencialmente. O documento produzido pela Escola Nacional de Saúde Pública destacava a tendência internacional de restrição ao uso de 2,4-D, à exemplo da Dinamarca, Suécia, Noruega, algumas partes do Canadá, províncias da África do Sul, e em algumas cidades de SC e RS. O parecer destaca que há comprovação científica de que o 2,4-D é um produto genotóxico: causa toxicidade do sistema reprodutivo, no cérebro e desregula os hormônios do corpo.

Fontes

Nota: conforme aviso no rodapé do website do Brasil de Fato - RS, "todos os conteúdos do Brasil de Fato podem ser reproduzidos, desde que não sejam alterados e que se dêem os devidos créditos".

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