10 de julho de 2024

Pirapora do Bom Jesus
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Em Pirapora do Bom Jesus, no estado de São Paulo, as principais fontes de informação são baseadas no boca a boca. Carros de som, grupos de WhatsApp, site da prefeitura, alguns perfis em redes sociais e avisos nas igrejas, é o que levam notícias e avisos aos 18.370 moradores, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Imagine morar em uma cidade sem acesso a informações confiáveis ​​sobre a administração pública, como saber sobre o destino do dinheiro público ou o que prefeitos e vereadores estão fazendo?

Essas são as dúvidas de 26,7 milhões de brasileiros em quase metade (48,7%) dos municípios considerados desertos de notícias pelo Atlas da Notícia, estudo que avalia a presença da imprensa para cobrir um território. São 2.712 cidades nessa condição — ao todo, o Brasil possui 5.565 municípios.

São chamados deserto de notícia locais sem qualquer jornalismo local independente, que acompanhe e fiscalize a vida na cidade, funções essenciais da imprensa na democracia.

Pirapora do Bom Jesus, um dos municípios mais pobres da região metropolitana de São Paulo, aparece no estudo. A reportagem da Agência Mural passou cinco dias lá para entender como circula a comunicação em um local assim.

“É difícil se informar porque a cidade não tem um jornal próprio. Se você não frequenta a igreja ou a sessão da Câmara de Vereadores, você não é informado. Só temos acesso às informações pela igreja e pela prefeitura”, diz Antônio Juarez de Oliveira, comerciante local.

Pirapora do Bom Jesus foi fundada ao redor de relatos de milagres, virou destino religioso e tem patrimônio histórico e cultural. Em 1725, uma imagem de Bom Jesus foi encontrada numa corredeira na região por dois escravizados — o santo virou padroeiro local, mas o município só se emanciparia em 1959.

Hoje, a cidade ainda enfrenta desafios socioeconômicos, com baixo índice de emprego formal e a necessidade de restauração de seus santuários.

Além das fontes informais de informação, como WhatsApp e o contato direto com conhecidos ou avisos nas igrejas, canais de vereadores servem como meio para denúncias e investigações.

Entre os nove vereadores da Câmara Municipal, há apenas uma mulher. Na oposição ao prefeito Dany Wilian Floresti (PSD), estão Helton Bananinha (Republicanos), Elias Araújo (Republicanos) e Roge Baudichon (União), pré-candidato a vice-prefeito nas eleições de 2024 e conhecido como “fiscal do povo”.

Com seu “gabinete móvel”, ele percorre a cidade gravando vídeos denunciando a falta de remédios, problemas com o saneamento e atendimento médico, além de divulgar suas próprias ações sociais.

“Tudo da cidade a gente ouve da boca de um vereador. Ficamos sem notícias que não sejam de um político”, lamenta Jeanderson Gomes dos Santos, trabalhador da construção civil e morador do bairro Parque Payol, o mais populoso de Pirapora.

Esse tom de “assessoria de imprensa”, como define o morador e designer Mário Rodrigues, incomoda boa parte da população. “Percebo que nas cidades vizinhas as pessoas têm voz mais ativa para cobrar a gestão pública, acho que por elas terem mais acesso à informação.”

Dubes Sônego, pesquisador do Atlas da Notícia, pontua que, quando se vive em um deserto de informação, perde-se a busca pela “verdade factual” e a opção acaba sendo confiar no que se vê nas redes sociais.

“Você não tem uma fonte de informação jornalística fazendo a distinção do que é fato e do que é opinião, e isso fragiliza a cidade e favorece a circulação de fake news”, explica.

Deserto de notícias nas eleições

Quando se pergunta sobre jornalismo em Pirapora, um dos veículos citados é a Rádio Pirapora FM. Trata-se de uma rádio comunitária, uma concessão pública destinada a atender uma determinada comunidade.

Por lei, como explica a Agert (Associação Gaúcha de Emissoras de Rádio e TV), esse tipo de serviço só pode ser explorado por ”associações e fundações comunitárias sem fins lucrativos, com sede na localidade”. As rádios ”devem ter uma programação pluralista, sem qualquer tipo de censura, e devem ser abertas à expressão de todos os habitantes da região atendida”.

Apesar disso, em Pirapora, a emissora local parece não ter isenção e está no nome de uma associação presidida pela mãe de um ex-prefeito da cidade, que governou a cidade por dois mandatos.

Trata-se de Gregório Maglio (MDB), político que pretende concorrer novamente ao Executivo municipal este ano. Maglio tem um programa na rádio em que entrevista aliados que pretendem disputar um cargo público. Apesar desse uso, ele alega que o programa é um bate-papo sobre o dia a dia da cidade que tem uma disputa acirrada.

Em 2012, apenas 28 votos separaram o primeiro e o segundo colocados nas eleições para prefeito. Foi a vantagem que Gregório teve para vencer o ex-prefeito Raul Bueno (PSDB), político que já governo por três vezes a cidade. Os dois seguiram disputando o poder, com pequenas margens de diferença nas votações de 2016 e 2020. Na última, Maglio apoiou Dany Floresti, que deve abrir caminho para o retorno do padrinho político, nas eleições de outubro de 2024.

Eugênio Bucci, professor titular da ECA-USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo), explica que o jornalismo pode ser uma etapa para resolução de problemas, mas não significa a solução total deles.

“O jornalismo não governa, não legisla, não faz julgamento, não exerce poder judiciário. É apenas uma instituição social que contribui para mediar o debate público e para fiscalizar o poder”, diz. “Se o jornalismo trouxer informação de qualidade, ele já ajuda muito”.

Fontes

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