Novo modelo de clubes de futebol, SAF começa a se tornar realidade

22 de janeiro de 2022

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A entrada do investidor norte-americano John Textor no mercado da bola brasileiro pode ser um dos marcos do novo modelo de clubes de futebol, chamado SAF (Sociedade Anônima do Futebol), pois o empresário do ramo das mídias digitais e do futebol, com fortuna avaliada em 191 milhões de euros (R$ 1,3 bilhão), acaba de ser tornar o novo “dono” do Botafogo.

O investimento do empresário no clube brasileiro vem avalizado por uma lei aprovada pelo Congresso em junho e sancionada em agosto pelo presidente Jair Bolsonaro. Oriunda do Projeto de Lei (PL) 5.516/2019, do senador Rodrigo Pacheco, presidente do Senado, a Lei 14.193/2021 autoriza os clubes a se organizarem sob a forma de SAF, o que aproximará os clubes das variantes de clube-empresa mundo afora.

Desde 1933, os clubes eram predominantemente associações sem fins lucrativos, o que causava conflito entre o caráter associativo, que implica desprendimento, e o acirramento da competição, principalmente por dinheiro, no mundo da bola.

“Para transformar a realidade do futebol no Brasil, afigura-se necessário oferecer aos clubes uma via societária que legitime a criação desse novo sistema, formador de um também novo ambiente, no qual as organizações que atuem na atividade futebolística, de um lado, inspirem maior confiança, credibilidade e segurança, a fim de melhorar sua posição no mercado e seu relacionamento com terceiros, e, de outro, preservem aspectos culturais e sociais peculiares ao futebol”, escreveu Pacheco na justificativa da proposta.

Pacheco também argumentou que “a transformação do regime de tutela do futebol vai possibilitar a recuperação da atividade futebolística, aproximando-a dos exemplos bem-sucedidos que se verificam em países como Alemanha, Portugal e Espanha”.

Amir Somoggi, fundador de uma empresa de marketing com atuação no setor, opinou que os investidores necessitam de regras adequadas para poderem aplicar recursos com controle direto e amplo dos negócios, o que inclui saber quem é o "dono" dos clubes. "Eu acho que a SAF é mais uma oportunidade que o mercado brasileiro hoje dispõe de fazer uma transformação na gestão do futebol, que vai de mal a pior, até por conta da pandemia. Os números pioraram. Estamos falando em clubes com dívidas acima de R$ 10 bilhões, que têm novamente oportunidade. Lembrando que já tivemos a Timemania, depois tivemos o Profut, tentando reorganizar os clubes. Só que desta vez o foco é na transformação da sociedade, que é uma entidade sem fins lucrativos, em empresa", disse.

No caso do Botafogo, explicou, "com dívida de R$ 1 bilhão, [o clube] que vem da Série B, voltando para a Série A, ter um investidor estrangeiro era a única solução, um investidor externo, porque sozinho não ia conseguir crescer, pelo tamanho do rombo em que se encontra".

Empresas x associações sem fins lucrativos

Somoggi esclareceu que a transformação de clubes em empresas não confere credibilidade automática a um clube, mas que isto é um bom começo, já que a lei pode trazer uma melhora da gestão usando as ferramentas do mercado financeiro. "Essa lei é moderna, mas ela não é a [única] solução".

Segundo o consultor, “o Flamengo, o Atlético Paranaense, o Ceará hoje são bons exemplos de boa administração sem necessariamente terem virado empresa.”

Cruzeiro, o pioneiro

O primeiro clube a anunciar sua conversão em SAF foi o Cruzeiro, no dia 18 de dezembro passado, quando o ex-jogador do time mineiro e da Seleção Brasileira Ronaldo Nazário comunicou que iria investir em torno de R$ 400 milhões no clube, com a garantia de 90% do controle sobre a nova entidade. Ele, na época, firmou um contrato de intenção de compra vinculada à possibilidade real de saneamento das finanças do clube.

Botafogo, o campeão em dívidas

Um ranking criado pela empresa de Somoggi coloca o Botafogo como o líder em dívidas, que totalizam quase 827 milhões de reais. Em segundo lugar, vem o Cruzeiro, com quase 800 milhões.

  1. Botafogo: ~827 milhões de reais
  2. Cruzeiro: ~800 milhões
  3. Internacional: ~795 milhões
  4. Corinthians: ~784 milhões
  5. Atlético-MG: ~747 milhões

Fontes