Nicarágua: êxodo de cidadãos gera mais de 1 bilhão de remessas dos EU

Agência VOA

15 de novembro de 2022

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Até o final de 2022, pelo menos um milhão de famílias nicaraguenses ajustarão o pagamento da cesta básica por meio de remessas de dinheiro vindas do exterior, em grande parte como resultado do êxodo em massa de cidadãos que emigram principalmente para os Estados Unidos, estima Manuel Orozco, diretor do Programa de Migração, Remessas e Desenvolvimento do Diálogo Interamericano, com sede em Washington. Segundo dados oficiais do Banco Central da Nicarágua, de janeiro a junho o país recebeu um total de 1.396 milhões de dólares em remessas, 35,5% a mais que no mesmo período do ano anterior.

E esses dados coincidem com os do ano fiscal de 2022 do Departamento de Alfândega e Proteção de Fronteiras dos Estados Unidos (CBP) que registrou um recorde de 2,7 milhões de detenções de migrantes, 164.600 desses nicaraguenses. Orozco falou para a VOA que as remessas na Nicarágua já representam 60% da renda familiar total que depende deste dinheiro e que o salário mínimo no país centro-americano está entre 200 e 300 dólares por mês e não é suficiente para pagar o cesta básica, cujo custo varia de 510 dólares, com o custo de vida sendo estimado em torno de 1.000 dólares. “Esse dinheiro ajuda as pessoas não só a comprar comida, mas também a subsidiar coisas importantes, como planos de internet ou pagar a conta de luz, que é uma das mais caras da América Central e custa em média 40 dólares por domicílio”, diz o especialista.

O outro lado das remessas

Embora os indicadores representem um alívio para as finanças dos nicaraguenses que ainda estão no país, a médio e longo prazo isso terá suas consequências, alerta o economista e ex-deputado Enrique Sáenz. Embora as remessas sejam "uma tábua de salvação e um colchão social" que permitem às pessoas enfrentar o custo de vida, o subemprego e o desemprego, por outro lado "é uma tragédia" porque nesta população que gera recursos económicos e que migrou "a mão-de-obra qualificada vai". “Há pessoas que investiram, famílias que investiram, mas também o Estado. Os nicaraguenses com seus impostos investiram em profissionais e técnicos em todos os ramos... você está perdendo mão de obra. A sua capacidade produtiva a curto e médio prazo, mas sobretudo a médio e longo prazo, está perdidad para sempre”.

Por outro lado, Saénz alerta para uma alteração "no que se chama estrutura demográfica do país". "Se você perder cerca de 7 ou 8% da população, isso coloca a Nicarágua no nível do Afeganistão, da Síria, porém sem guerra e sem catástrofe natural. Aqui a catástrofe é a permanência de Daniel Ortega no poder, com o país perdendo 8% da população da estrutura da pirâmide, pessoas de 15 a 40 anos, que é um custo que você vai pagar por várias décadas".

O governo do presidente Ortega culpou as sanções dos Estados Unidos pela migração nicaraguense. "Se as sanções continuarem, haverá mais migrantes", sublinhou o presidente no final de outubro.

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