Funeral de José Eduardo dos Santos: Filhos e Governo com leituras diferentes

19 de julho de 2022

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Agência VOA

Os cinco filhos mais velhos do falecido Presidente angolano José Eduardo dos Santos comprometeram-se a colaborar na realização de um funeral nacional, mas após as eleições de 24 de agosto e pedem um mausoléu para acolher os restos mortais.

A informação é avançada pela agência Lusa e referida pela imprensa portuguesa e angolana como estando numa carta subscrita por cinco dos seus filhos.

Entretanto, enquanto a filha de Dos Santos, Tchizé dos Santos diz não ter assinado a carta mas estar de acordo com o teor dela, sem qualquer pedido de amnistia, o ministro de Estado e Chefe da Casa Militar, Francisco Furtado condenou a eventual pretensão dos filhos em usarem os restos mortais do antigo Presidente como moeda de troca pelo fim das acções judiciais que enfrentam no país.

A carta divulgada na imprensa é supostamente subscrita por Isabel, José Filomeno "Zenu", Welwitschea "Tchizé", Joess e José Eduardo Paulino "Coreon Dú", os filhos do antigo Presidente da República, que expressam "profunda gratidão ao povo de Angola" e a todos os que partilham a sua tristeza, pedindo respeito pelo luto.

Homenagem e respeito

"Seja qual for o resultado das próximas eleições, no futuro, nós, a família, junto das instituições e do Presidente eleito, colaboraremos na união da Nação e, a organizar com tempo necessário as condições para homenagem e o funeral nacional do Pai da Nação, o nosso pai, Eng. José Eduardo dos Santos, para que um dia este em dignidade e respeito descanse em paz na terra dos seus antepassados", prometem os filhos mais velhos, na carta, no qual apelam “ a todos a respeitarem os nossos costumes, os nossos valores ancestrais e as nossas crenças religiosas”.

“O nosso pai tem esse direito e ninguém o pode contestar", continua a carta, em que os filhos lembram que na tradição africana o tempo de luto é "um tempo de reflexão e reconciliação".

A agência citada pela imprensa diz que a carta foi enviada pelos serviços de assessoria da filha Isabel dos Santos, em que consta a assinatura de "Tchizé" dos Santos, e no qual defendem o "fim dos processos judiciais e institucionais contra muitos angolanos".

Entretanto, num áudio divulgado hoje, Tchizé dos Santos refuta a ideia de que ela tenha pedido qualquer amnistia e diz duvidar que seus irmãos tenham feito tal pedido.

“O que os meus irmãos iam pedir era um pedido de desculpas público à figura de José Eduardo dos Santos no Parlamento, um reconhecimento de que houve um conflito político que o vitimou e que vitimou a família e uma reparação dos danos provocados por tudo o que estamos a ver”, disse a antiga deputada no áudio a que a VOA teve acesso.

Governo contrapõe

Entretanto, o ministro de Estado e Chefe da Casa Militar, Francisco Pereira Furtado, que chefiou a delegação que se encontra em Barcelona a negociar com a família, indicou que na reunião mantida com alguns dos filhos do antigo Presidente, na qual não estava Tchizé, o Governo deixou claro que eles não poderiam pretender usar os restos mortais do pai como moeda de troca das acções judiciais que enfrentam em Angola.

“No encontro que tive com a família, incluindo a eng. Isabel dos Santos, a Tchizé não participou directamente, mas o seu irmão Filomeno, há o desejo deles de verem realmente o pai sepultado, mas as condições que nos transmitiram no sábado passado levaram-nos a esclarecer que não deviam usar o corpo do pai como moeda de troca para atingir outros fins que não sejam aquilo que é o sentimento familiar e o sentimento da nação angolana, toda a nação angolana chora e quer a presença do seu líder no país para render-lhe a merecida homenagem como líder político”, afirmou Furtado quem acrescentou “lamentamos que isto esteja assim”.

Entretanto, em declarações à VOA, o companheiro e amigo do antigo Presidente, o general Dino Matross, apela à paz.

“Neste momento tudo que posso aconselhar é paz e que se encontra a melhor forma de se encontrar a paz”, disse.

José Eduardo dos Santos morreu a 8 de julho e o destino do seu corpo depende agora da decisão de um tribunal da Catalunha, Espanha.

Fontes