Covid-19: Lira dá ultimato e diz que Parlamento pode usar "remédio fatal" para resolver a crise da pandemia

25 de março de 2021

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Poucas horas após a reunião dos Três Poderes, ministros diversos, incluindo o da Saúde, e de sete governadores aliados ao presidente Jair Bolsonaro, Arthur Lira, presidente da Câmara de Deputados, fez um duro discurso à tarde no plenário da casa.

Lira afirmou que o Legislativo não vai tolerar mais erros na condução do combate à pandemia e que é preciso esgotar todas as possibilidades antes de partir para as responsabilizações individuais. Segundo ele, “os remédios políticos no Parlamento são conhecidos e são todos amargos. Alguns, fatais. Muitas vezes são aplicados quando a espiral de erros de avaliação se torna uma escala geométrica incontrolável”, disse.

"Faço um alerta amigo, leal e solidário: dentre todos os remédios políticos possíveis que esta Casa pode aplicar num momento de enorme angústia do povo e de seus representantes, o de menor dano seria fazer um freio de arrumação até que todas as medidas necessárias e todas as posturas inadiáveis fossem imediatamente adotadas, até que qualquer outra pauta pudesse ser novamente colocada em tramitação. Falo de adotarmos uma espécie de 'Esforço Concentrado para a Pandemia', durante duas semanas, em que os demais temas da pauta legislativa sofreriam uma pausa para dar lugar ao único que importa: como salvar vidas, como obter vacinas, quais os obstáculos políticos, legais e regulatórios precisam ser retirados para que nosso povo possa obter a maior quantidade de vacinas, no menor prazo de tempo possível", disse.

Lira reforçou que esta não é sua intenção, mas ressaltou que está “apertando hoje um sinal amarelo para quem quiser enxergar: não vamos continuar aqui votando e seguindo um protocolo legislativo com o compromisso de não errar com o País se, fora daqui, erros primários, erros desnecessários, erros inúteis, erros que são muito menores do que os acertos cometidos continuarem a serem praticados”, afirmou.

O presidente da Câmara defendeu a vacinação ampla da sociedade, mas destacou que, para que a imunização alcance o maior número de brasileiros, é preciso ter boas relações com a China, nosso maior parceiro comercial e um dos maiores fabricantes de insumo no mundo.

“Para vacinar temos de ter uma percepção correta de nossos parceiros americanos e nossos esforços na área do meio ambiente precisam ser reconhecidos, assim como nossa interlocução”, destacou.

Lira avaliou positivamente a reunião prévia entre os Três Poderes. Para ele, houve uma mudança de atitude em relação à pandemia. Arthur Lira reforçou a importância do espírito colaborativo entre os Poderes. “Mais que nunca, é necessário manter e construir com os demais Poderes durante estes momentos dramáticos da pandemia e a observância fiel e disciplinada à vontade soberana desta Casa”, disse o presidente.

Lira afirmou que não busca culpados e que não quer fulanizar os erros cometidos no combate à pandemia. O presidente da Câmara ponderou que os erros não são cometidos por apenas um lado, mas ressaltou que há aqueles que têm mais responsabilidades e maior obrigação de errar menos. Para ele, em momentos de desolação coletiva, há uma forte tendências a linchamentos e, por isso mesmo, todos tem de estar mais alertas do que nunca, pois a dramaticidade do momento exige”, avaliou.

“Também não é justo descarregar toda a culpa de tudo no governo federal ou no presidente. Precisamos, primeiro, de forma bem intencionada e de alma leve, abrir nossos corações e buscar a união de todos, tentar que o coletivo se imponha sobre os indivíduos”, afirmou.

Lira pediu esforço solidário e genuíno de todos para produzir os resultados necessários para combater a pandemia. “Mas alerto que, dentre todas as mazelas brasileiras, nenhuma é mais importante do que a pandemia. Esta não é a casa da privatização, não é a casa das reformas, não é nem mesmo a casa das leis. É a casa do povo brasileiro. E quando o povo brasileiro está sob risco nenhum outro tema ou pauta é mais prioritário”, alertou.

Leia a íntegra do pronunciamento aqui.

O sinal amarelo

Apesar de dizer que não quer jogar a culpa no governo federal, o "sinal amarelo" - de atenção - vem apenas duas semanas depois de uma nova troca - a quarta durante a pandemia - na chefia do Ministério da Saúde, agora nas mãos do médico Marcelo Queiroga, que substituiu o general do Exército - sem qualquer formação na área da Saúde - Eduardo Pazuello, que entre outras ações liberou o "kit covid" defendido por Bolsonaro, que é composto por medicamentos ineficazes contra a covid-19, como a cloroquina.

Também durante a gestão de Pazuello, o Amazonas viveu uma crise no fornecimento de oxigênio em janeiro passado, o que levou dezenas de pessoas à morte, crise que segundo a empresa fornecedora do produto, a White Martins, poderia ter sido, ao menos em parte, evitada pelo Executivo, que havia sido comunicado com antecedência.

A crise do Amazonas se estendeu para todo Brasil, que há cerca de três semanas vê a rede hospitalar pública e privada colapsada em vários estados, com mais de 100% de lotação nos leitos clínicos e de UTIs, na que é chamada a "pior crise sanitária" do Brasil, e que se encaminha para a falta de oxigênio generalizada e a falta de medicamentos importantes, como anestésicos para intubação, também generalizada.

A troca de Pazuello por alguém da área da Saúde era uma exigência de Lira e outros políticos do chamado Centrão, que em parte dão apoio a Bolsonaro, sendo que a preferida pelo presidente da Câmara, a médica e professora da USP Ludhmila Hajjar, recusou o convite de Bolsonaro por discordar de suas ideias, incluindo o uso da cloroquina. Ela disse à época que não faria outra coisa que basear suas decisões, se ministra, na Ciência.

O jornal O Globo analisou que Lira, sim, referiu-se "indiretamente até à possibilidade de impeachment".

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Fontes